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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Paradoxo de ChurruMênon

Posto aqui o excelente texto de Tiago Magalhães (Mestre e Doutor em Filosofia da Universidade Federal do Ceará). 

Chaves e Platão: Paradoxo de ChurruMênon

Não bastasse propor um trabalho de Chaves com filosofia ainda teve a sensibilidade de construir seu texto com um título que mistura o diálogo de Platão fazendo um trocadilho com o "objeto metafísico" do universo chavístico.

Antes de reproduzir o texto aqui um informe: existem novos episódios no podcast que pretende ser alimentado melhor esse ano. Como é dito nesse texto a era da internet com blogs morreu, com todas implicações e contradições que isso nos traz. Ou seja, uma internet cada vez menos democrática e mais voltada para uma experiência individualista de marketing e auto-promoção.

Dito isso segue o texto disponível em: https://www.anpof.org.br/comunicacoes/coluna-anpof/chaves-e-platao-paradoxo-de-churrumenon


Em um de seus manuscritos, Wittgenstein afirmou que é possível escrever um livro de filosofia composto inteiramente de piadas. Concordo. O trabalho do filósofo, que exige boa dose de distanciamento dos modos corriqueiros de pensar, frequentemente parece requerer certo apreço por irrelevâncias e absurdidades. Essa inclinação é compartilhada por loucos, crianças e humoristas, figuras que também conseguem se afastar com facilidade da lógica inerente ao mundo prático.

As minhas piadas favoritas de Chaves são justamente as que envolvem absurdos. A primeira contradição que me chamou a atenção, muito antes de eu começar a estudar lógica e filosofia analítica, está num esplêndido micro-diálogo entre Kiko e dona Florinda:

– Mamãe, posso entrar na piscina?
– Sim, Tesouro, mas não vá se molhar.

Quando criança, sacadas desse tipo me maravilhavam tanto que eu não conseguia vê- las apenas como divertimentos; elas pareciam revelar um mundo novo, repleto de possibilidades incríveis. Como a realidade concreta, com sua teimosia antipática, sempre me deixou um bocado desconfortável, acabei desenvolvendo grande propensão para o disparate.

Dessa forma, nada mais fácil que me identificar com as peculiaridades cognitivas do Chaves. Como ele, em alguns momentos, eu primeiro entendo sentidos bizarros das expressões e, só depois, o sentido mais usual, se é que venho a entender o sentido usual. Quando me pego fazendo isso, é quase irresistível repetir para mim mesmo: ‘ai, que buro, dá um zero pra ele!’.

Eu devia ter uns dez anos, quando, certa vez, meu tio Canuto – ou teria sido o tio Joãozinho? – me disse: ‘E então, jovem, o que é que há?’. Gosto de pensar que esse foi o pontapé inicial das minhas especulações metafísicas. Bem, é óbvio que estou enfeitando o passado. Claro que não tentei articular nenhuma tese ontológica naquele momento. Mas a fala me intrigou, porque realmente me pareceu uma pergunta estranha, sobre o que existe de modo geral, e não como simples saudação. Ao menos é assim que eu lembro. Algum implicante poderia alegar que, àquela época, eu já ouvira inúmeras vezes o famoso bordão do Pernalonga, mas isso não me faz abrir mão desse belo registro. Afinal, eu posso ter sempre entendido a frase toda – quequeavelinho – como uma espécie de interjeição longa usada pelo coelho, um gavagai qualquer que ele falava e eu nunca me dei ao trabalho de traduzir.

Estes dias, descobri que outra memória, de cuja fidedignidade nunca suspeitei, foi substancialmente recauchutada pela minha imaginação. E uma memória importante, a respeito de alguns dos personagens mais interessantes de Chaves: os misteriosos churruminos. A cena em que esse termo é introduzido, uma interação entre Chaves e Chiquinha, é uma das minhas favoritas e eu sempre a citei, para várias pessoas, dizendo que ela contém estas falas:
– Que é isso? Tá louco?
– Shhh... Estou caçando churruminos.
– Caçando o quê?
– Churruminos.
– E o que é isso?

– Não sei. Ainda não peguei nenhum.

Depois de citar as falas, eu sempre dizia, com a maior empolgação, que esse gracejo põe em evidência um problema filosófico fundamental. O alvo de nosso riso, o fato de que a tal busca pelos churruminos não faz o menor sentido, nos diz algo importante sobre o buscar. Eis aí algo que interessa a filósofos de diferentes tradições. Heidegger, por exemplo, bem que poderia ter usado essa ilustrativa pilhéria como artifício expositivo em Ser e Tempo, o que contribuiria para tornar sua leitura mais divertida, digo, para tornar sua leitura ao menos um pouco divertida. Poderia aparecer como uma pequena digressão mais ou menos nesta altura:

Enquanto busca, o questionar necessita de uma orientação prévia do que se busca. Para isso, o sentido de ser já nos deve estar, de alguma maneira, à disposição. Já sealudiu que sempre nos movemos numa compreensão de ser. É dela que brota a questão explícita do sentido de ser e a tendência para o seu conceito (§2).

O conhecimento, então, é a meta de uma investigação, mas também, de certa forma, deve estar no seu ponto de partida. Esse é o cerne do que atualmente recebe o nome de Paradoxo de Mênon, devido a esta passagem de um diálogo de Platão:

 E de que modo, Sócrates, te arranjarás para procurar o que não sabes absolutamente o que seja? Das coisas que desconheces, qual é a que te propões procurar? E se porventura vieres a encontrá-la, como poderás saber que é ela, se nunca a conheceste?
– Compreendo, Mênon, o que queres dizer. Mas, será que avalias, de fato, quanto é provocativa tua proposição de que o homem não pode procurar nem o que sabe nem o que não sabe? Não pode procurar o que sabe, pelo simples fato de já o conhecer; não precisará portanto, esforçar-se para procurá-lo; nem o que ignora, pois não saberá mesmo o que terá de procurar (Mênon, 80d-81a. Trad. Carlos Alberto Nunes).

Sócrates considera provocativa a fala de seu interlocutor porque ela sugere que a aquisição de conhecimento ou é desnecessária ou é impossível. Ora, se assim fosse, a forma de vida de Sócrates perderia o sentido, pois ela consiste essencialmente em buscar a sabedoria. Seria, então, a atividade filosófica tão vã como a caça aos churruminos?

Platão lida com esse desafio apelando à sua célebre teoria da reminiscência, em que propõe que, realmente, a alma humana não adquire conhecimento. Quando alguém parece aprender algo, está, na verdade, relembrando algo que sabia antes de nascer. Nossas almas, antes de serem aprisionadas em seus respectivos corpos, contemplavam diretamente a realidade última, o mundo eterno das Formas. Durante a estada no mundo material, a alma perde esse acesso privilegiado ao verdadeiro conhecimento, sendo capaz de recuperá-lo apenas parcialmente e depois de muito esforço.

Segundo Platão, os seres materiais são apenas uma imperfeita imitação (mímesis) daquilo que existe no mundo das Formas. E, naturalmente, o trabalho do filósofo deve se orientar pelos originais, não pelas cópias. Os objetos concretos, acessados pela percepção, não prestam o auxílio de que necessita a alma que anseia pelo conhecimento. Esse é um papel que cabe somente a outras almas, que podem criar, por meio do diálogo, as condições que propiciam a reminiscência. Durante os diálogos, conteúdos não podem ser exportados de uma alma para outra. Por isso que Sócrates chama sua atuação de maiêutica, por ela ser similar ao trabalho da parteira, que apenas ajuda a trazer à tona algo que está no interior do outro.

E aqui retorno aos churruminos e à afinidade entre humor e filosofia. Iniciei a breve e precária apresentação do pensamento de Platão que vai acima com a enunciação de certo problema, o Paradoxo de Mênon, problema este que aparece, condensado, naquele trecho do diálogo sobre os churruminos. Por seu poder de apresentar conteúdos relevantes de forma sintética e saliente, piadas desse tipo são capazes de facilitar a identificação de relações conceituais fundamentais para a atividade filosófica. Esse potencial é ainda mais evidente no âmbito do compartilhamento de pensamentos filosóficos, onde uma piada – uma piada excepcional, claro –, usada com habilidade, pode tornar-se uma espécie de deflagrador de insights alheios, um mecanismo de intervenção maiêutica instantânea.

Pois bem, toda a cadeia de pensamento que vai acima, aparentemente, está baseada numa falha de minha memória. Eu tinha plena segurança de que a cena que introduz os churruminos era tal como relatei. Mas vi novamente o episódio e eis que, na verdade, o diálogo entre Chaves e Chiquinha é este:
– Que é isso? Tá louco?
– Shhh... Estou caçando churruminos.
– Caçando o quê?
– Churruminos.
– E o que é isso?
– Os churruminos são uns bichinhos assim pequenininhos, pequenininhos, que só existem na minha imaginação.

A revelação fez-me pensar que minhas reminiscências estão mais para mímesis fajutas que para revelações de realidades eternas. Mas a surpresa não foi de todo má, pois essa segunda versão do diálogo também contém considerável potencial filosófico. Ela me fez lembrar o Argumento da Linguagem Privada do tal Wittgenstein, que citei na abertura, lembrança que dá um bom mote para outro texto.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Podcast

 Para quem gosta de podcast estou lançando pouco a pouco o conteúdo daqui nessa plataforma: https://open.spotify.com/show/1LEnMleOwCmNxbqtZ4bi3Z

quinta-feira, 11 de junho de 2020

quinta-feira, 9 de abril de 2020

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Parece, é ou tem sabor? (Gnosiologia chavística)

-E que sabor são?
-A que parece de limão é de groselha, e tem gosto de tamarindo. A que parece de groselha é de tamarindo com sabor de limão. E a que parece de tamarindo é de limão com sabor de groselha.
(Chaves vendendo seu peixe-refresco)

A gnosiologia e epistemologia (teoria do conhecimento) se confundem, entretanto a epistemologia ganhou um outro aspecto no decorrer dos séculos e passou a ser uma designação que serve para várias disciplinas, podendo ser traduzida pelos fundamentos e validações próprias de qualquer ramo do saber. A questão de como o conhecimento se dá, no sentido de apreensão da realidade ficou sendo o que se chama de gnosiologia, ou seja, como eu conheço um refresco? Suas propriedades estão na minha cabeça ou fora de mim? Para facilitar (ou não), conheço o refresco pelo que ele é, parece ou pelo sabor?
Kant foi um filósofo que tratou dessas questões de uma maneira exaustiva em sua Crítica da razão pura. Um livro que demorou mais de uma década para ser escrito (provavelmente não atendendo aos padrões de produtividade atuais de pesquisa científica) e que não pretendo abordar em suas minúcias por aqui embora recomende a leitura, de qualquer pessoa interessada em entender como a filosofia funciona, através de uma construção rigorosa e complexa.
A questão do filósofo foi de muito humildemente estabelecer os limites do que de fato poderia conhecer, nesse ponto a crítica não significa nada mais do que limite, estabelecer os limites do conhecimento. O que vendo assim parece pouco é uma fundamentação de toda uma física newtoniana que se estabeleceu a partir de não se filiar a uma causa primeira mas de estudar os efeitos (fenômenos) e extrair leis a partir desses efeitos e não de uma causa necessária. Dentro do famoso juízo sintético a priori, é possível desenvolver ciência, universalizando uma teoria antes da experiência (no campo lógico, a priori é diferente de inato). O mérito de Kant foi de unir empirismo e racionalismo para teorizar sobre o conhecimento. Existem as intuições (que advém da experiência de uma estética transcendental) e os conceitos da lógica (analítica transcendental)  que são processados pela razão que efetua o processo de entendimento a partir disso. Não há primazia de um conceito isolado de uma experiência estética e vice versa. Em outras palavras, pensamento conceitual sem a experiência sensorial (conteúdo) é um pensamento vazio, intuições (experiencia sensorial) sem pensamento conceitual são cegas. (B75; TP 77) 
Pois sim, depois disso fica a questão quanto aos refrescos. Não sabemos se é de limão ou de groselha ou de tamarindo, porque não conhecemos o refresco independente do nosso ponto de vista sobre ele, ou seja, o refresco em si mesmo nos é desconhecido. Após a experiência definimos um gosto e podemos fazer uma relação com o que nos parece.
Posso ser acusado de superficialidade ao tratar de um filósofo tão complexo mas é interessante notar que o ponto de partida de Kant que levou a essa filosofia crítica chamada de criticismo, foi o ceticismo de Hume que segundo o próprio filósofo alemão, o despertou de um "sono dogmático." Encerro com uma frase que não é de Hume mas resume o ponto de partida cético.
"De que o mel é doce, é algo que me nego a afirmar mas que parece doce, isso eu afirmo plenamente"

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Educação e Chaves e a Filosofia

-"Eu sou pedagogo"
-"E eu que culpa tenho"

(Diálogo entre o professor lingu...digo professor Girafales e Sr. Madruga)




A educação também é ocupação da filosofia. Obras como O mestre ignorante do filósofo Jacques Rancière e quase que todas obras de Silvio Gallo, são exemplos dessa ocupação e filosofar partindo da ideia dos fundamentos da educação mas principalmente do que seria educar em filosofia, ou seja, o que isso representa.
A fala de Seu Madruga (ou Don Ramón), apresenta uma perspectiva interessante em se contrapor uma pedagogia de um lado e a vida concreta de outro. Embora seja um grande tema até para outra postagem, é preciso dizer que o ambiente do seriado, apesar da fala e do video em destaque no começo, talvez não seja o melhor para vislumbrar algo que seja: "minha nossa mas que maravilha de discussão pedagógica", até porque o objetivo já declarado pelo próprio criador do seriado, Roberto Bolaños, é entreter e com a frase correta ao invés da falha de Don Ramón. Nas palavras de Chespirito o programa não é para que se saiba a capital da França mas para que se possa rir com algo simples e inofensivo. 
Entretanto, em postagens anteriores em que respondo um texto que desqualifica o seriado após a morte do autor da série atribuindo o contrário de algo "simples e inofensivo" recebi um comentário revoltado com a defesa...de uma arte que não tem obrigações pedagógicas. O texto ao qual me referi na dita postagem ressalta o mestre Cantinflas que para exemplificar seria algo como o Chaplin mexicano. Porém, é estranha uma "glamourização" e romantização de Cantinflas para uma crítica ao Chaves supostamente já consagrado. Esse tipo de postura não só parece artificial, como aparenta mostrar uma certa intelectualidade e bom gosto frente a um público geral ignorante, algo que remete a adolescência e a disputa pela banda mais obscura a se ouvir. O caso é que os "problemas" de Chaves não estão livres de ocorrer em Cantinflas e em vários outros tipos de programas antigos como três patetas, irmãos Marx etc. Da mesma forma programas atuais que passam em um atual "filtro" podem não passar em um novo filtro amanhã e até mesmo não são 100% simples e inofensivos nos padrões atuais. 
Não se trata de uma crítica do mundo chato e politicamente correto mas de algo elementar (regras de educação elementar já diria o mestre Girafales), há um contexto envolvido. Pessoas que não estão em uma atividade pedagógica, mas sim assistindo TV. Quem gosta do seriado não agirá conforme o que acontece em uma vila hipotética e reproduzirá tudo que acontece em um seriado dos anos 70 e 80 sem o mínimo de critério, isso é no mínimo risível. É possível gostar do seriado e ser crítico em relação a muitos pontos. Piadas que eram comuns não são mais, porém não se pode chamar de hipocrisia simplesmente gostar de um seriado. 
Um sinal dos tempos é se fazer militância com pauta moral, as vezes se é bem intencionado mas por melhor que seja a intenção, a política não é um jogo moral individual. Pensar a educação e pedagogia é também se preparar para enxergar os contextos.
Mas e a filosofia nisso? Pois sim, não estudar Aristóteles por ter sido a favor da escravidão, Nietzsche por ter tido seu discurso corrompido e por algumas posições polêmicas. Heidegger por seu envolvimento com o Nazismo se encaixa nisso. Nada menos pedagógico que simplesmente excluir sem maiores explicações. Se sua pedagogia é essa, eu não tenho culpa.